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Segurança

Burlas com contas da Booking: como proteger o alojamento e os hóspedes

Por Publicado a 9 min de leitura

Em resumo

Os burlões entram na extranet da Booking de um alojamento com palavras-passe roubadas, muitas vezes depois de um e-mail falso que leva um funcionário a colar um comando no computador da receção. Com a conta aberta, escrevem aos hóspedes pelo chat da Booking, com os dados reais da reserva, e pedem que "confirmem o cartão" numa página falsa. As defesas estão ao alcance do gerente: o código da aplicação Pulse, uma conta por pessoa, a regra de nunca colar comandos pedidos por um site e um aviso aos hóspedes na mensagem de confirmação.

Os burlões entram na extranet da Booking de um alojamento (a área onde se gerem preços, reservas e mensagens) com palavras-passe roubadas: um e-mail falso "da Booking" leva um funcionário a uma página que lhe pede para colar um comando no computador, ou um programa instalado às escondidas copia as palavras-passe guardadas no navegador. Com a conta aberta, escrevem aos hóspedes pelo chat verdadeiro da Booking, com o nome, as datas e o valor certos, e pedem que "confirmem o cartão" numa página falsa. As defesas estão ao alcance do gerente: o código da aplicação Pulse, uma conta por pessoa, uma regra na receção (nunca colar comandos pedidos por um site) e um aviso aos hóspedes na mensagem de confirmação.

Como os burlões entram na conta do alojamento

O método que a Microsoft, a Securonix e a Sekoia descreveram chama-se ClickFix. Em 13 de março de 2025, a Microsoft Threat Intelligence descreveu uma campanha a que chama Storm-1865, iniciada em dezembro de 2024, contra quem trabalha em hotéis e alojamentos que usam a Booking na Europa, na América do Norte, no Sul e Sudeste da Ásia e na Oceânia. Os e-mails imitam a Booking e falam de uma avaliação negativa, do pedido de um futuro hóspede, de uma promoção ou de uma verificação da conta. O link abre uma página com um falso "não sou um robô" sobre um fundo da Booking, que pede ao funcionário para abrir a janela "Executar" do Windows com uma combinação de teclas e colar um texto que a página já pôs na memória do computador. Esse texto instala programas que roubam palavras-passe e dados de pagamento.

Em 5 de janeiro de 2026, a Securonix publicou outra variante, dirigida a empresas de hotelaria europeias: um falso aviso de cancelamento da Booking com uma cobrança alta em euros (num dos exemplos, 1 004,38 €), uma página que simula um erro e depois o ecrã azul do Windows, e três passos para "resolver": Windows+R, Ctrl+V, Enter. No fim fica instalado um programa que dá ao atacante controlo remoto do computador.

Nem sempre começa por um e-mail. Em 2023, a Akamai descreveu ataques que começavam com um pedido de reserva normal; a seguir, o "hóspede" mandava ao hotel e-mails aflitos com um link para "fotografias", que instalava um programa de roubo de dados. A Sekoia acompanhou, entre abril e outubro de 2025, uma campanha que usava ClickFix e um programa de acesso remoto para roubar a hotéis os acessos à Booking e à Expedia. Segundo a Sekoia, esses acessos roubados vendem-se em fóruns criminosos, um a um ou em lote, e os de melhor qualidade custam entre 5 e 5 000 dólares cada.

Como os hóspedes são enganados

Com a extranet aberta, o burlão vê o mesmo que a receção: nome do hóspede, datas, valor e mensagens. Escreve pelo chat da Booking, por WhatsApp, SMS ou e-mail, perto do momento em que o hóspede espera notícias do alojamento. No caso descrito pela Akamai, a mensagem pedia para "voltar a confirmar o cartão" e ameaçava cancelar a reserva se nada fosse feito em 24 horas. O link abre uma página igual à da Booking, por vezes com um chat de "apoio" para manter a pessoa a pagar. A Sekoia chamou à campanha "I Paid Twice" ("paguei duas vezes") por causa de um hóspede que pagou a mesma reserva ao hotel e aos burlões.

Em 28 de maio de 2026, a Gen Digital, dona da Norton, contou mais de 350 alojamentos em 50 países cujos dados de reservas foram usados nestes ataques, e escreveu que o número é conservador. Em abril de 2026, a Booking disse ter detetado atividade suspeita nos seus sistemas e avisou clientes de que terceiros não autorizados tinham acedido a dados de algumas reservas (nomes, e-mails, telefones e detalhes da reserva). Acrescentou que os dados de cartão não foram afetados e mudou o PIN dessas reservas, segundo o resumo do INCIBE-CERT, a equipa espanhola de resposta a incidentes, que em maio dava a origem exata como ainda em investigação. Em 21 de outubro de 2026, a Comissão Europeia abriu um procedimento formal ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais que inclui a forma como os dados de reservas e de hóspedes são partilhados com os alojamentos e o funcionamento do serviço de mensagens da Booking.

O prejuízo chega depois ao alojamento: o hóspede culpa quem lhe escreveu "em nome do hotel", deixa uma avaliação má, pede o dinheiro de volta ou contesta pagamentos.

O que a Booking pede aos alojamentos

A página de segurança da conta no Partner Hub diz que a verificação em dois passos é obrigatória desde o registo: além da palavra-passe, a Booking envia um código para um telefone da equipa ou para a aplicação Pulse (a aplicação da Booking para alojamentos). A mesma página recomenda o código gerado na aplicação (chamado TOTP) em vez do SMS, porque as mensagens de texto podem ser lidas por outras pessoas, duram mais tempo e não são cifradas, enquanto o código da aplicação expira depressa. Ativa-se na extranet, no ícone da conta, em "My devices": escolhe-se o dispositivo e carrega-se em "Enable 2FA via Pulse".

A Booking escreve que nunca pede dados de acesso. Se alguém da equipa deu a palavra-passe e o código a terceiros, ou recebeu chamadas e mensagens a pedir alterações na conta, a Booking pede contacto em 24 horas. Aos hóspedes, a Booking diz que nunca pede dados de cartão por e-mail, telefone, SMS ou WhatsApp, nem uma transferência bancária diferente das condições de pagamento da confirmação da reserva.

O que fazer esta semana

Tudo isto pode ser feito pelo gerente, sem ajuda externa, e é o que tratamos com a equipa no Raio-X no local.

  1. Ative o código da aplicação Pulse para cada pessoa que entra na extranet e confirme que o telefone registado pertence a alguém que ainda trabalha consigo.
  2. Dê a cada pessoa a sua própria conta na extranet, só com as permissões de que precisa. Apague as contas de quem saiu e acabe com a palavra-passe partilhada da receção. Em "My devices", retire os dispositivos que não reconhecer.
  3. Proteja o e-mail associado à conta da Booking com verificação em dois passos e uma palavra-passe que não use em mais lado nenhum. Quem controla esse e-mail consegue repor a palavra-passe da extranet.
  4. Afixe junto ao computador da receção uma regra de uma linha: "Nenhum site, nenhuma verificação e nenhuma pessoa ao telefone nos pede para carregar em Windows+R, colar e carregar Enter. Se aparecer, feche a página e avise o gerente."
  5. Junte a equipa 20 minutos e mostre os iscos reais: avaliação negativa, cancelamento com cobrança alta, hóspede com link para fotografias, verificação de conta. Combine que qualquer aviso destes se confirma abrindo a extranet pelo endereço escrito à mão ou pela aplicação Pulse, nunca pelo link.
  6. Não guarde a palavra-passe da extranet no navegador do computador da receção e use esse computador só para trabalho.
  7. Acrescente à mensagem de confirmação e à mensagem antes da chegada um aviso como este: "Nunca lhe pediremos dados do cartão por mensagem, WhatsApp ou link. Se receber um pedido destes em nosso nome, não pague e ligue-nos para o +351 ...".
  8. Verifique se o domínio do alojamento tem DMARC em quarentena ou rejeição, para que ninguém envie e-mails falsos com o seu endereço. Em novembro de 2026 verificámos os 109 sites que os empreendimentos turísticos do Sotavento indicam no Registo Nacional de Turismo, e 56 dos 83 domínios (67%) não davam aos servidores de correio instrução para rejeitar ou pôr em quarentena e-mails falsos. O guia sobre SPF, DKIM e DMARC explica como corrigir, e o Raio-X Digital gratuito inclui esta verificação.

O que só se vê dentro do alojamento

Estas campanhas funcionam em série: a Gen Digital descreve páginas falsas geradas em massa para hotéis, hostels, guesthouses, moradias e apartamentos. Os e-mails falsos chegam a alojamentos de todos os tamanhos, incluindo os bem geridos, e a pergunta útil é o que acontece quando um chega ao seu. Nas campanhas da Microsoft, da Securonix, da Sekoia e da Akamai, a entrada foi o computador de alguém da equipa.

Uma verificação no local olha para o que não se vê de fora:

  • computadores e telemóveis da equipa com o sistema e o navegador atualizados e a proteção contra vírus ativa;
  • nenhum programa de controlo remoto, como o AnyDesk ou o TeamViewer, instalado ou ligado sem necessidade;
  • o acesso de administração do router fechado e nada aberto para a internet que não devia estar, como câmaras ou gravadores;
  • o Wi-Fi dos hóspedes separado da rede do escritório e das câmaras;
  • cópias de segurança que já foram restauradas pelo menos uma vez;
  • uma conta para cada pessoa.

É o que verificamos no Raio-X no local, uma visita em que também fechamos as contas, com um relatório curto no fim e orçamento à medida para o que houver a corrigir.

O que fazer se a conta já foi atacada

Comece pelo computador. Desligue da rede o computador onde alguém colou o comando ou abriu o link, e não volte a usá-lo para a extranet até estar limpo ou reinstalado. Os programas destas campanhas copiam palavras-passe, incluindo as guardadas no navegador, por isso todas as que lá estavam devem ser mudadas a partir de outro dispositivo, começando pelo e-mail e pela Booking.

Depois siga os passos que a Booking indica: reponha a palavra-passe em "Forgot your password?" na página de entrada da extranet, veja se mudaram dados na extranet (por exemplo contactos, dados bancários, utilizadores ou mensagens enviadas) e use "Report a security issue" dentro de 24 horas. Ligue também para o apoio a parceiros da Booking.

Avise os hóspedes com reservas futuras, por telefone ou por e-mail a partir do domínio do alojamento, de que não pede pagamentos por link e de que devem ignorar mensagens recentes nesse sentido. A quem já pagou, diga que contacte o banco de imediato.

Guarde as provas antes de apagar o que quer que seja: os e-mails falsos com os cabeçalhos, capturas de ecrã das mensagens enviadas em seu nome, os links e as horas. Apresente queixa na PSP, na GNR, na Polícia Judiciária ou no Ministério Público. Quem a faz em nome próprio, como pessoa singular, pode usar o Sistema de Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna. Pode ainda comunicar o incidente ao CERT.PT, a equipa de resposta do Centro Nacional de Cibersegurança, pela plataforma MyCiber ou por cert@cert.pt, como indica a página de notificação do CNCS.

Se terceiros viram dados de hóspedes, o artigo 33.º do RGPD obriga a notificar a CNPD, sempre que possível em 72 horas, salvo se não houver risco para as pessoas, e a documentar o incidente mesmo quando não há notificação. A CNPD tem um formulário próprio para isso.

Perguntas frequentes

A Booking foi pirateada?

As campanhas descritas pela Microsoft, pela Securonix e pela Sekoia entram pelos computadores e pelas contas dos alojamentos. Em abril de 2026, a Booking disse ter detetado atividade suspeita nos seus sistemas e avisou clientes de que terceiros tinham acedido a dados de algumas reservas; em maio, a origem exata ainda estava em investigação. Em outubro de 2026, a Comissão Europeia abriu um procedimento para avaliar se a plataforma trata bem o risco de burlas com esses dados.

A verificação em dois passos chega para proteger a conta?

Trava quem só tem a palavra-passe. Não trava um programa de acesso remoto instalado no computador da receção, que usa a sessão já aberta, por isso a regra de nunca colar comandos e uma conta por pessoa contam tanto como o código.

Como sei se uma mensagem da Booking é verdadeira?

Não use o link da mensagem. Abra a extranet escrevendo o endereço, ou abra a aplicação Pulse, e veja se o mesmo aviso lá está. A Booking diz que nunca pede dados de acesso.

O que digo a um hóspede que já pagou a um burlão?

Que ligue de imediato ao banco para bloquear o cartão e contestar o pagamento, que guarde as mensagens e que apresente queixa. Confirme-lhe por telefone o que deve realmente pagar e quando, e informe a Booking.

Tenho de avisar a CNPD?

Se terceiros viram dados pessoais de hóspedes, o artigo 33.º do RGPD obriga a notificar a CNPD sem demora injustificada e, sempre que possível, em 72 horas, salvo se a violação não for suscetível de causar risco para as pessoas. O incidente tem de ficar registado internamente em qualquer caso.

Fontes

  1. Phishing campaign impersonates Booking.com, delivers a suite of credential-stealing malware, Microsoft Threat Intelligence,
  2. Analyzing PHALT#BLYX: How fake BSODs and trusted build tools are used to construct a malware infection, Securonix Threat Research,
  3. Phishing campaigns "I Paid Twice" targeting Booking.com hotels and customers, Sekoia TDR,
  4. Sophisticated phishing campaign targeting hospitality, Akamai Security Research,
  5. When hotel scams know your booking: 350 compromised accommodations across 50 countries, Gen Digital (Norton),
  6. Detection of unauthorized access to Booking user data, INCIBE-CERT,
  7. Commission to investigate how Booking.com combats scams and fraud under the Digital Services Act, Comissão Europeia,
  8. Securing your account, Booking.com Partner Hub,
  9. Dicas de segurança para viajantes, Booking.com,
  10. Sistema de Queixa Eletrónica, Ministério da Administração Interna,
  11. Notificação de incidentes, Centro Nacional de Cibersegurança,
  12. Violação de dados ou data breach, Comissão Nacional de Proteção de Dados,
  13. Regulamento (UE) 2016/679 (RGPD), artigo 33.º, EUR-Lex,
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